Então
veja o que diz o professor Ben Shapiro, da Universidade
de Harvard, um dos maiores especialistas em vendas do
mundo
Ben Shapiro, o sujeito da foto ao lado, pode não
entender nada de gravatas - pelo menos a julgar pela
que leva empertigada ao pescoço -, mas é
um dos maiores especialistas em vendas do mundo. Professor
de marketing da Harvard Business School há mais
de 30 anos, é também autor ou co-autor
de 14 livros, incluindo 'Conquistando Clientes' e 'Mantendo
Clientes', publicados no Brasil pela editora Makron
(ambos esgotados). Ele será um dos cinco palestrantes
do II Fórum Mundial de Marketing e Vendas, que
ocorrerá em 28 e 29 de junho em São Paulo,
promovido pelo HSM Group.
Shapiro nasceu há 62 anos em Lynn, nas cercanias
de Boston, no estado americano de Massachusetts. É
casado há 40 anos, tem um filho de 38 e uma neta
de cinco. Formou-se em Engenharia Química na
Universidade de Michigan e concluiu um MBA com distinção
e um PhD em Administração em Harvard.
De seu escritório em Massachusetts, ele falou
por telefone a Pequenas Empresas & Grandes Negócios
sobre o perfil do vendedor competente, por que acredita
que nem todos os clientes são iguais e no que
ele presta atenção quando entra numa loja.
Qual o perfil do bom vendedor?
Existem três traços de personalidade que
definem os vendedores competentes. O primeiro deles
é o ego de vendedor. Trata-se de um senso de
competitividade, uma vontade de vencer, de fechar uma
venda. A segunda característica é uma
capacidade de assimilar respostas negativas. Se há
quatro pessoas competindo para fazer uma venda, apenas
uma ouvirá um sim. Para ser um bom vendedor,
você precisa ser durão o bastante para
se recuperar do não. O terceiro traço
é a empatia, que permite entender outras pessoas,
saber como elas reagirão ao que você disser.
Isso ajuda a saber o que dizer em uma situação
de venda.
O senhor já escreveu artigos dizendo
que não é possível agradar a todos
os clientes. Por quê?
É improvável que uma empresa tenha produtos
que todo mundo queira. Você pode gostar de filé;
eu gosto de carneiro. Você pode ser um sujeito
grande e precisar de roupas grandes. Eu sou baixinho
e preciso de roupas menores. Uma das tarefas mais importantes
de quem vende é avaliar que produtos vai vender
e para quais clientes. A esquizofrenia nos negócios
é fatal.
Então é preciso selecionar os
clientes. Como se faz isso?
O truque é pensar: para quais clientes eu consigo
oferecer algo muito, muito especial? Quem realmente
precisa do que estou vendendo? Se eu fosse alijado do
negócio, quem sentiria a minha falta? Quem choraria
no meu funeral? Depois que descobrir quem são
esses clientes, deve se concentrar neles e não
perder tempo com os demais.
O senhor escreveu que um vendedor precisa
dar razões ao cliente para comprar e continuar
comprando sempre. Por quê?
Depois que você vende, o próximo passo
é continuar a servir os clientes. E a melhor
maneira de fazer isso é oferecer um serviço
muito bom. Um garçom em um bom restaurante, por
exemplo, pergunta se o filé está no ponto
que você pediu ou se a refeição
está boa. O vendedor deve estar constantemente
presente para eliminar qualquer desprazer. O natural
é que o cliente não consuma e a sua missão
é fazer com que ele compre e continue comprando.
O vendedor tem de trabalhar para manter o cliente entusiasmado,
feliz.
Para conseguir isso, é importante se
diferenciar da concorrência, certo?
Quanto mais diferente dos concorrentes você for,
maior probabilidade terá de definir preços
e ganhar mais dinheiro do que qualquer um. Meu exemplo
favorito para isso é a Dell Computer. Quando
Michael Dell começou a empresa, disse para si
mesmo: 'todos os computadores são iguais. O que
difere um fabricante do outro é a forma como
eles se relacionam com os consumidores. É aí
que eu serei diferente: venderei diretamente aos compradores.
Produzirei um computador somente depois que ele tiver
sido encomendado. Porque computadores são como
bananas: seu prazo de validade é curto'. Dell
se saiu muito bem, porque ele tinha claro que queria
ser diferente. E porque era diferente, conseguiu prosperar
mais que outras empresas do ramo.
O senhor tem dito que a retenção
de clientes está intimamente ligada à
retenção de funcionários. Por quê?
Se você entra numa loja e os vendedores te conhecem,
sabem de antemão do que você gosta, podem
ser muito mais úteis. Mas se a rotatividade de
funcionários é grande, se eles estão
sempre sendo substituídos por gente nova, nunca
poderão ser bem treinados. Eu vou a Nova York
uma vez por mês e sempre fico hospedado no mesmo
lugar. É um hotel pequeno e, quando o porteiro
me vê, abre a porta e diz: 'Senhor Shapiro, é
muito bom vê-lo novamente'. Eu gosto daquilo.
Me faz sentir que sou bem-vindo. Por isso é tão
importante manter os funcionários. Eles detêm
as informações, os relacionamentos com
os clientes. Se você retém os funcionários,
consegue reter também os clientes.
Vendedor esperto é vendedor honesto?
É claro. A diferença entre um vendedor
e um trambiqueiro é a honestidade. Se você
se relaciona com os mesmos clientes regularmente, eles
perceberão se você mentir. Você se
queima se disser que o produto será enviado amanhã,
e ele não for; se disser que o produto faz algo
que ele não faz... Uma das características
mais valiosas que um vendedor deve ter é um profundo
senso de integridade.
'É importante manter
os funcionários porque são eles que se
relacionam com os clientes. Quando você faz isso,
então consegue reter também os clientes'
Em que o senhor presta atenção
quando entra em uma loja para comprar algo?
Muitas coisas. Primeiro, antes mesmo de entrar na loja,
falo com meus amigos para checar se eles a conhecem.
Se eles me dizem que os vendedores não falam
a verdade, as mercadorias não são de primeira,
as entregas não são pontuais, nem chego
a ir à loja. O contrário ocorre se dizem
que é uma boa loja, onde os vendedores te dão
toda a atenção. O boca-a-boca é
muito importante. Quando estou dentro da loja, faço
julgamentos o tempo todo. Se é uma loja bagunçada,
tenho a impressão de que provavelmente não
cuidarão bem do meu pedido. É melhor que
vendam muito barato para compensar. Se é uma
loja organizada, posso até topar pagar um pouco
mais porque imagino que a mercadoria e o serviço
serão melhores. Avalio também se consigo
encontrar o que quero. Além disso, se o vendedor
é mal-humorado, rude, mentiroso, o recado que
a empresa me passa é que não sou importante.
Por outro lado, se eu entro numa butique e compro três
ternos, acho legal se o vendedor me ligar uma semana
depois da entrega para perguntar se gostei das roupas,
se o corte estava de acordo... Se isso acontece, é
provável que eu volte à loja no futuro
e conte aos meus amigos como a experiência foi
boa.
O senhor já trabalhou como vendedor?
No segundo grau, eu trabalhei numa farmácia.
Depois fui vendedor de roupas masculinas em uma loja
de departamentos. Quando terminei meu MBA, assumi como
gerente de marketing de uma empresa muito pequena, o
que significava que na prática eu tinha de ir
a campo falar com os clientes e vender.
'Se o vendedor é mal-humorado,
rude, mentiroso, o recado que a empresa me passa é
que não sou importante '
O que aprendeu com isso?
Primeiro, aprendi que realmente gosto de vender, o que
eu nunca pensei que gostaria, porque sou tímido.
Mas descobri que me agrada ajudar as pessoas a resolver
seus problemas. Eu gostava também de ganhar a
competição para fechar uma venda. E aprendi
a ouvir melhor, porque percebi que precisava entender
profundamente o cliente. Foi uma grande experiência.
O senhor tem um filho e uma neta. Ensinou
algo a eles sobre como comprar e vender?
À medida que nosso filho foi crescendo e tínhamos
de decidir para onde ir nas férias, por exemplo,
procuramos envolvê-lo no processo. Acreditávamos
que ele precisava aprender como ser um bom consumidor,
como medir o valor dos produtos e serviços. Mas
ele não tem o ego de vendedor: é professor
de Ciências no primário. Dias atrás
comemoramos o aniversário de cinco anos de minha
neta e a levamos para comprar uma bicicleta. Tentamos
fazê-la entender que ela deveria buscar fazer
a melhor escolha possível, de forma que ficasse
feliz no final. Ela experimentou vários modelos,
mas se decidiu rápido, porque já sabia
o que queria: uma bicicleta roxa.
Ben Shapiro
Idade: 62 anos
O que faz: É professor de marketing da Harvard
Business School há mais de 30 anos e autor ou
co-autor de 14 livros de negócios
O que pensa: Diz que as empresas precisam saber selecionar
seus clientes e que o bom vendedor deve gostar de competir,
ter empatia com o freguês e saber ouvir.
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